A LITERATURA PORTUGUESA NO AUDIOVISUAL – TEXTO INTRODUTÓRIO

Sara Vitorino Fernandez

Resumo


A Literatura Portuguesa, devido à sua importância e complexidade, foi, desde os alvores do cinema, fonte de inspiração para adaptações de obras literárias ou para filmes de cariz biográfico. Também a Televisão foi sensível aos enredos dos textos romanescos portugueses, o que levou a adaptações plenas de teor artístico e original.

 O dossier que aqui se apresenta reúne estudos que comprovam o diálogo frutífero entre obras literárias portuguesas e o audiovisual. Estes estudos focam temáticas que fazem parte da idiossincrasia portuguesa como a figura de Inês de Castro, Luiz de Camões e Fernão Mendes Pinto; ou obras de escritores consagrados como Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Lídia Jorge.

O estudo exaustivo de Ana Alexandra Seabra de Carvalho compara o romance de Rosa Lobato de Faria, A Trança de Inês, de 2001, com a adaptação feita para cinema em 2018, um filme intitulado Pedro e Inês, realizado por António Ferreira. Ana Carvalho destaca a recriação do mito de Inês de Castro e Pedro de Portugal no texto literário e no filme através de estratégias narrativas que denunciam um jogo temporal de dimensões passadas, presentes e futuras. O jogo entre as três dimensões temporais atesta a perenidade de um sentimento que vive através dos tempos e que ainda hoje é fonte de inspiração.

Felipe do Monte Guerra, no seu artigo, foca o romance de Camilo Castelo Branco, Mistérios de Lisboa, e compara-o com a sua adaptação cinematográfica de 2010 e realizada por Raúl Ruiz. O autor analisa em pormenor as reviravoltas do enredo e o estatuto das personagens do romance de Camilo Castelo Branco e investiga em que medida o realizador reproduz esse enredo tão complexo no filme adaptação e as estratégias que usa para executar essa recriação.

João Carlos Andrade de Carvalho traz-nos o plano de estudos de um módulo de Cinema e Literatura a ser leccionado no Curso de Verão de Português Língua Estrangeira, que decorre todos os anos na Universidade do Algarve (Faro, Portugal). O investigador usa a relação entre a literatura e o cinema de uma forma pedagógica para transmitir ao aluno de português-língua estrangeira conhecimentos de cultura, literatura e cinema portugueses. Neste caso, são mostrados filmes como Camões, de José Leitão de Barros, de 1946, filme biográfico que retrata a vida e obra de Luiz Vaz de Camões; Peregrinação, filme de 2017 e realizado por João Botelho, a adaptação da obra de Fernão Mendes Pinto que inclui trechos musicais da obra Por este rio acima, de Fausto Bordalo Dias; e finalmente, A Costa dos Murmúrios, filme de 2004, realizado por Margarida Cardoso, adaptação do romance homónimo de uma das mais consagradas escritoras portuguesas da segunda metade do século XX, Lídia Jorge, e que retrata a memória da experiência da Guerra Colonial através da voz de uma mulher.

Finalmente, Sara Vitorino Fernandez reflecte sobre as adaptações feitas ao romance Os Maias por Maria Adelaide Amaral e Luiz Fernando Carvalho, em 2001, e por João Botelho, em 2014. Estas adaptações para televisão e cinema, apesar das liberdades artísticas inerentes a qualquer adaptação de uma obra literária, demonstram respeito pelo texto literário e acuidade na recriação de ambientes, personagens e discurso. A autora do artigo discorre também sobre algumas liberdades artísticas em relação ao texto literário e procura justificá-las à luz da engrenagem da Televisão e do Cinema actuais.

Como está patente nos trabalhos apresentados, de natureza tão diversa, a reflexão científica sobre as relações entre a literatura e o audiovisual continua a ser uma área frutífera e actual. Apesar de estarmos a reflectir sobre obras muitas vezes com séculos de existência, a ideia de que uma adaptação é um ponto de vista interpretativo feito no tempo presente sobre uma obra anterior leva a retratar a própria contemporaneidade e a deixar a marca do hoje sobre o passado.

                                                                      Sara Vitorino Fernandez

 


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